Cidades
Presidente de Câmara de Vereadores e dona de cabaré no Sertão da Paraíba assume homossexualidade

Publicado em 02/07/2020 18:47 - Atualizado em 02/07/2020 18:47

Reprodução

Na pequena São José do Brejo da Cruz, no sertão da Paraíba, Lilia Saldanha é campeã em quebrar tabus. Ao mesmo tempo vereadora e dona de bordel, ela assumiu publicamente a homossexualidade após os 40. Em meio ao conservadorismo na cidade coronelista, ainda se tornou presidente da Câmara de Vereadores.

Lilia, que está no quinto mandato na Câmara, se elegeu pela primeira vez em 1996. Na terceira disputa, em 2004, perdeu. Ainda no cargo, não ligou para a liturgia da função e montou um bar, em Caicó, no Rio Grande do Norte, a 70 quilômetros de São José, para juntar dinheiro e pagar as dívidas da campanha. Era a gênese do Cabaré Sol e Lua, hoje o mais tradicional do semiárido potiguar.

 

“Como depois de toda eleição, o candidato está sempre endividado, então abri um bar”, diz Lilia.

A princípio, a vereadora não queria que o bar fosse um bordel. Mas o negócio acabou tomando esse rumo quase por acaso quando uma amiga da sua então namorada que trabalhava num bordel pediu para atuar só por uma noite no bar.

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“Essa menina com que eu estava me envolvendo disse que uma amiga dela brigou no cabaré onde trabalhava. À noite, essa amiga disse que iria trabalhar no bar. O caixa nesta noite foi equivalente ao salário de três vereadores”, lembra a empresária.

“Falei para ela ficar mais três dias. No terceiro dia, ela foi embora. E retornou com duas amigas. Assim virou um cabaré.”

O Sol e Lua completa 16 anos em 2020. Ele ganhou projeção após uma “live”, para ajudar as meninas que trabalham lá e que estão paradas desde o início da pandemia, viralizar. Foram mais de 160 mil visualizações no YouTube e toneladas de alimentos arrecadados.

“Muitas meninas passaram pelo meu bar. Virou uma tradição na cidade porque é um cabaré de respeito. Todo mundo se respeita ali.”

Comandar Câmara é mais complicado que cabaré

 

Hoje, aos 46 anos, Lilia diz que, apesar dos estigmas que cercam a sua orientação sexual e o bordel, onde ela sofre mais preconceito é no cargo de vereadora.

“Estou cansada de estar na fila do banco e ouvir dizer que todos os políticos são ladrões e corruptos. Como não sou nada disso, muito pelo contrário, eu me defendo e o povo me elege de novo”, diz Lilia, que afirma nunca ter todas as contas aprovadas. Ela diz que o preconceito a fez desistir da política e que não concorrerá à reeleição, em 2020.

Por telefone, Lilia diz que não há nada em comum entre a câmara que preside e o bordel que comanda. “Não tem semelhança, não. Em nada.” Mas afirma que a burocracia do legislativo o torna um ambiente muito menos favorável para trabalhar do que o cabaré. Por outro lado, pondera que as cerca de dez meninas são mais complicadas de comandar no dia a dia do que os nove vereadores na Câmara.

“É mais fácil lidar com os vereadores. Tem menina com objetivo de vida e outras que não têm”, afirma.

Atualmente no PP, partido do Centrão e aliado do governo Jair Bolsonaro, Lilia prefere não opinar sobre a posição nacional da legenda e sobre as posições do presidente em relação à população LGBT. “Não acompanho”, diz.

 
 


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